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   Apresentação

Em 2009, terá lugar no Brasil uma série de eventos comemorativos ao Ano da França, país que, em diversas temporalidades, influenciou a formação cultural brasileira, tanto no campo técnico da engenharia como também no da arquitetura e do urbanismo, sem esquecer evidentemente o campo da sociologia, da história e da literatura.

A ruptura da relação entre ciências exatas e literatura, que Wolf Lepenies situa no momento do nascimento das ciências humanas, abriu um abismo epistemológico que hoje começa a ser reconsiderado. Ao editar em 1940 Um engenheiro francês no Brasil, obra que acompanhou o lançamento do Diário de um engenheiro francês, Gilberto Freyre já demonstrou de forma premonitória que engenharia, sociologia e literatura, podem muito bem ser disciplinas complementares.

A influência francesa tornou-se mais significativas no Brasil no decorrer do século XIX, sob os ideários civilizatórios do liberalismo, do mercantilismo, das luzes e da moda. No campo técnico, os paradigmas higienistas, sanitaristas e em especial as reformas realizadas em Paris pelo prefeito Haussmann podem ser verificadas nas cidades capitais, onde as intervenções realizadas adotaram esses paradigmas. Dentre as cidades que passaram por reformas urbanísticas podem ser citadas: a do Rio de Janeiro, por ser a sede do governo metropolitano; a de Belo Horizonte, construída sob da virada do século, e o Recife.

No século XIX, o Recife viveu grandes epidemias de febre amarela e cólera, impondo-se a necessidade de medidas de higienização e salubridade. Ademais, exigiu-se igualmente a dinamização da economia açucareira por meio da modernização portuária e da articulação dos sistemas de transporte fluvial e marítimo.

Para levar a cabo a modernização, o então governador de Pernambuco Francisco do Rego Barros, o Conde de Boa Vista, contratou engenheiros e técnicos franceses, dentre os quais o mais ilustre foi Louis-Léger Vauthier, antigo aluno da Ecole Polytechnique, engenheiro do corpo das Ponts et Chaussés, que entre 1842 e 1846, dirigiu a Repartição de Obras Públicas da província.

O jovem engenheiro de 25 anos, que desembarca no Recife em 1840, traz consigo uma considerável bagagem técnica adquirida na França. Como chefe da Repartição de Obras Públicas (ROP) realizou, além do planejamento de fornecimento de água potável, obras de engenharia sanitária, como aterros de mangues e alagados, também a construção de estradas, pontes e edificações públicas.

A obra que mais se destacou como expressão da influência francesa foi o Teatro de Santa Isabel, marco da arquitetura neoclássica no Recife. Esta obra passou a simbolizar a configuração do Recife moderno, sobrepondo-se às concepções barrocas dos setecentos.

A inovação foi sem dúvida a marca da ação de Vauthier. O engenheiro introduziu novas técnicas de construção e novos materiais como o ferro, que seria amplamente utilizado nas construções de mercados públicos, na arquitetura de parques, jardins, pontes e teatros de finais do século XIX.

Ao desembarcar no Recife, Vauthier trazia novas idéias que fervilhavam nas escolas de engenharia francesas ao redor da idéia de progresso e de reformas sociais, inseparáveis, na época, da idéia de progresso técnico. Assim, foi mais que um engenheiro: foi um humanista, um propagador nos trópicos das recentes idéias nascidas na Europa. Dentre as idéias que propagou no Brasil uma das principais foi a do socilaismo de Charles Fourier, sendo salientada em diversos estudos a influência desse ideário na Revolução Praieira ou ainda na futura Escola do Recife.

Vauthier foi um personagem paradigmático de sua época e de seu tempo. Foi essa trajetória que levou Gilberto Freyre a declarar que o francês foi um "engenheiro de pontes e idéias". Entre a data de seu retorno do Brasil em 1846, e seu falecimento em 1901, viveu em harmonia com os ideais de sua juventude, deixando uma produção intelectual importante que patenteia a relação entre ciências exatas, humanas e literatura.

A publicação no Brasil de seu Diário, da correspondência enviada a César Daly e da obra de Gilberto Freyre, permitiu que o testemunho de sua experiência brasileira servisse de fonte importante para numerosos especialistas da história, da sociologia, do urbanismo e do patrimônio brasileiros. Entretanto, como estes documentos são pouco conhecidos nos meios acadêmicos franceses, Vauthier ainda tem sido pouco estudado na França.

Se a importância dos relatos de estrangeiros que viveram no Brasil no século XIX para a construção da identidade nacional está mais do que comprovada, a visão de Vauthier sobre o Brasil e os brasileiros não é desprovida de polêmica, mormente em seu diário íntimo.

Cumpre trazer à luz igualmente a visão que, sobre Vauthier, têm os brasileiros, que é em parte função da subjetividade do francês. Lembremos com Foucault que a verdade dos relatos está na correspondência ou na equação buscada entre "a autoridade dos livros e o testemunho da verdade dos fatos".

Assim, contrapor a visão de Vauthier com outras, trazer à luz estudos que utilizem seus relatos como fonte, dar a conhecer a contribuição que deixou, tanto do ponto de vista técnico, como ideológico, poderá permitir, através de um painel especular, o estabelecimento da importância de sua presença entre nós.

Ao rememorar Louis-Léger Vauthier, sua formação acadêmica e experiência profissional, sua obra de engenharia, arquitetura e urbanismo e sua atuação enquanto pensador e difusor das idéias socialistas francesas em meados do século XIX, não somente vislumbramos a oportunidade de conhecer o mundo de então mas, sobretudo, a possibilidade de praticar a um só tempo reflexão inovadora e crítica do presente e análise do passado.

Pensar o que era a França, o Brasil e Pernambuco, mais particularmente, e quais eram na época os planos para o futuro da sociedade de um modo geral, propiciará o estabelecimento de um jogo de alteridades que nos levará a visualizar com mais clareza e perspectiva o momento histórico em que vivemos, e o futuro que queremos construir.

      
 


 
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